Só Quem Torce Entende

No fim do jogo, até o “calma” entra na lista de suspeitos.

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Três pessoas sentadas em um sofá diante de uma TV fora do quadro; uma parece aflita, outra comemora com o braço erguido e a terceira observa. Há petiscos, garrafas e uma bola de futebol à frente, enquanto símbolos riscados aparecem na parede ao fundo.

Aos 43 do segundo tempo, alguém disse “calma”. A almofada subiu da ponta do sofá como cartão amarelo antes de a frase terminar.

Ninguém explicou a regra. Não precisava. Quando o jogo aperta, “calma” não é conselho. É uma tentativa muito perigosa de negociar com o universo.

A súmula das frases suspeitas

A sala não discute tática nessa hora. A sala julga o momento exato em que alguém resolveu falar.

“Calma”: dita com boa intenção, recebida como se tivesse chamado o ataque adversário para perto.

“Já ganhou”: frase capaz de fazer todo mundo olhar para a TV como se o placar tivesse voltado a zero.

“Não tem como dar errado”: o otimismo que faz alguém procurar madeira para bater, sem admitir que procurou.

“Esse lance não dá em nada”: normalmente dito dois segundos antes de a bola sobrar na área.

“Vou buscar água rapidinho”: pedido que precisa passar por análise de risco, porque ninguém quer mexer no que aparentemente está dando certo.

Movimento também pode dar zica

No fim do jogo, a cadeira em que você sentou deixa de ser cadeira. Vira posição tática. Levantar para atender o telefone, trocar de lugar ou mexer no volume pode render um olhar que diz: você tem certeza de que quer fazer isso agora?

O pessimista pede silêncio absoluto. O otimista tenta ajudar com uma frase leve. Em poucos minutos, os dois concordam numa coisa: o otimista precisa parar de ajudar.

A almofada, então, assume a função mais nobre da casa. Não serve para conforto. Serve para apontar, de longe, quem acabou de soltar um “relaxa” aos 47.

O idioma dos acréscimos

É que ninguém na sala consegue dar carrinho, organizar a defesa ou mandar o juiz apitar. Sobra controlar o detalhe ao alcance: as palavras, os passos até a cozinha e a mão que ameaça pegar o controle remoto.

No fim, a torcida inventa esse idioma próprio para sofrer em grupo. Uma palavra pode ser proibida, uma almofada pode virar cartão amarelo e ninguém ri muito alto antes do apito final.

Depois que acaba, claro, todo mundo recupera a coragem. E vira técnico no grupo da torcida.

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