Saiu gol. Agora ninguém lembra onde largou o controle.

O replay começou. A sala inteira olhou para a TV por dois segundos, até alguém perguntar o que realmente importa depois de um gol: “Cadê o controle?”
Ninguém responde. Porque, no abraço que veio com o gol, a sala perdeu a formação. Quem estava no canto apareceu no meio. Quem segurava o copo agora está procurando o copo. E o controle, que tinha uma função simples na vida, entrou em paradeiro desconhecido.
Começou a operação sofá
A primeira suspeita é sempre a almofada. Ela é levantada com cuidado, como se pudesse esconder uma prova decisiva. Depois vem o cobertor, que ninguém lembra de ter usado, mas de repente ganha importância de documento oficial.
Aí surge quem acusa sem prova: “Você sentou em cima dele.” A pessoa acusada nega com a firmeza de quem também não faz ideia de onde sentou depois do grito.
Existe ainda o investigador da sala. Ele não tocou no controle, não viu ninguém tocando no controle, mas organiza a busca: manda olhar no vão do sofá, pede para ninguém levantar de uma vez e reconstrói o abraço como se estivesse revisando o lance.
O replay virou detalhe
Enquanto isso, o gol passa de novo na TV. Só que ninguém consegue ver direito. Um está de pé atrás do sofá, outro procura no próprio colo e um terceiro tenta lembrar onde estava antes de sair correndo pela sala.
Em algum momento, a missão deixa de ser rever o gol. Agora é descobrir quem perdeu o controle. O jogo segue, a transmissão fala de outra coisa, e a sala está presa numa investigação que começou com um abraço.
Talvez seja por isso que há gol que a turma comemora antes de entender. Quando o replay chega, cada um lembra de um pedaço diferente do lance — e ninguém tem certeza de onde foi parar o controle.
O segundo gol da sala
Então alguém aperta duas almofadas quase por educação e sente alguma coisa dura no meio. O controle estava lá desde o começo, espremido entre as duas, quieto, assistindo à operação inteira.
A reação é desproporcional, claro. O objeto sobe para o alto como troféu recuperado. Tem comemoração, tem acusação refeita e tem quem diga que sabia onde ele estava. Não sabia. Mas agora já é tarde para discutir.
O primeiro replay passou. O segundo vira homenagem ao gol, ao sofá e à capacidade da torcida de transformar um controle remoto numa questão de Estado.
Quem assiste jogo junto sabe: o gol não termina no grito. Ele ainda rearruma cadeira, copo, almofada e a memória coletiva da sala.
Essa resenha tem endereço?
O controle some no abraço e a sala vira comissão de investigação antes do replay. Essa é a cara da nossa turma?
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