Só Quem Torce Entende

A conversa pediu tempo. O ataque começou.

Torcedor Premiado · · 3 min de leitura

Homem e mulher sentados diante de uma mesa com xícara de café, prato de comida e um garfo suspenso com uma porção; ao fundo, uma televisão mostra um estádio de futebol iluminado.

O garfo ficou parado no caminho da boca. A história também. “Peraí”, disse alguém, com o dedo levantado para a TV, como se a sala inteira tivesse acabado de entrar em campo.

O garfo ficou parado no caminho da boca. A história também.

“Peraí”, disse alguém, com o dedo levantado para a TV, como se a sala inteira tivesse acabado de entrar em campo.

A frase era simples. “Eu ia te contar que…” Mas a bola cruzou o meio-campo, apareceu um espaço perto da área e, de repente, terminar aquele assunto virou um risco que ninguém quis correr.

As etapas de uma conversa em dia de jogo

Não é falta de educação. É que, quando o próprio time ameaça atacar, até o assunto mais urgente aceita ficar no banco por alguns segundos.

A frase em aberto: alguém começa a contar uma história, a bola chega perto da área e o final fica pendurado no “aí eu falei…”.

A retomada precipitada: a jogada acaba, a sala respira e a pessoa tenta voltar ao assunto. A TV mostra o replay. Novo dedo levantado. Novo “peraí”.

O otimista de plantão: para ele, qualquer avanço é a jogada que vai mudar a noite. A conversa precisa respeitar o momento histórico, mesmo que o lance termine em lateral.

O pessimista da sala: pede silêncio para não chamar zica, como se uma explicação sobre o trabalho pudesse desconcentrar quem está em campo.

O assunto desaparecido: depois de três ataques e dois replays, ninguém lembra o que estava sendo contado. Mas todo mundo sabe que o time quase chegou.

O replay também quer falar

A parte mais cruel é que a conversa quase sempre volta no intervalo entre um lance e outro. Alguém respira, ajeita o garfo e diz: “Então, como eu estava falando…”

Aí vem o replay. E o replay, na sala de quem torce, não é repetição. É prova nova. O lance que já parou tudo uma vez ganha direito de interromper a mesma história de novo.

Tem gol que a sala comemora primeiro e entende depois. Quando isso acontece, a conversa não pede tempo: ela aceita que só vai descobrir o próprio final depois do apito.

No fim, a comida esfria um pouco, a história muda de dono e alguém pergunta: “Mas você ia contar o quê mesmo?”

Ninguém sabe. O importante é que o ataque foi acompanhado com a concentração de uma decisão. Há assunto que não acaba: fica parado no meio da sala, esperando o jogo deixar.

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Manda pra quem responde “peraí” e nunca mais volta no assunto.

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