Só Quem Torce Entende

No elevador, a camisa e a cara já entregaram o placar

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Dois homens vistos em um espelho de elevador: à esquerda, um homem de camisa laranja amassada comemora com o punho erguido; à direita, outro homem de camisa amarela e verde amassada segura a cabeça com expressão de frustração. Ao fundo, há luzes de estádio e confetes.

A porta fecha. No espelho, duas camisas amassadas. Ninguém pergunta o placar porque a cara dos dois já respondeu.

Um olha para o número do andar. O outro olha para qualquer canto que não seja o espelho. A viagem até o térreo começa com a discrição de quem acabou de ver um lance que ainda não conseguiu aceitar.

O que cabe em poucos andares

A camisa faz o crachá. Nem precisa perguntar para quem a pessoa torce: ela já entrou na conversa antes do “boa noite”.

A cara é o boletim do jogo. Pode ser alívio, raiva, esperança torta ou aquele olhar de quem está refazendo o lance pela nona vez.

O painel vira rota de fuga. Cada andar aceso parece uma chance de escapar da análise tática que está se formando no peito.

O celular aparece sem função nenhuma. Ninguém está vendo mensagem; só precisa dar trabalho para as mãos.

“Foi sofrido” é a frase mais segura do prédio. Serve para muita coisa e não entrega demais.

Os dois personagens que sempre entram junto

O Pessimista mal vê a própria imagem e já confirma a tese: “Eu sabia”. Não disse durante o jogo, claro. Mas agora parece que guardou a frase no bolso da camisa.

O Encerrador é mais rápido que a porta. Antes de qualquer resenha nascer, já prepara um “boa noite” tão cedo que parece ter apertado o botão do térreo com a voz.

Os dois, porém, entendem uma regra silenciosa: ninguém é obrigado a abrir a resenha. Às vezes o espelho já trabalhou demais.

A súmula já saiu no espelho

Quando a porta finalmente abre, vem a despedida mais responsável do futebol: “boa noite”. Curta, respeitosa e cheia de assunto que ficou no elevador.

Porque, naquele espaço apertado, houve uma coletiva inteira sem microfone. A camisa identificou os envolvidos. A cara entregou o placar. E o espelho publicou a súmula.

Se alguém apertar o botão da resenha depois, aí já é outro campeonato: a conversa pode continuar no grupo da torcida.

Essa resenha tem endereço?

Marca o vizinho que já fez essa coletiva inteira sem abrir a boca.

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