No elevador, a camisa e a cara já entregaram o placar

A porta fecha. No espelho, duas camisas amassadas. Ninguém pergunta o placar porque a cara dos dois já respondeu.
Um olha para o número do andar. O outro olha para qualquer canto que não seja o espelho. A viagem até o térreo começa com a discrição de quem acabou de ver um lance que ainda não conseguiu aceitar.
O que cabe em poucos andares
Os dois personagens que sempre entram junto
O Pessimista mal vê a própria imagem e já confirma a tese: “Eu sabia”. Não disse durante o jogo, claro. Mas agora parece que guardou a frase no bolso da camisa.
O Encerrador é mais rápido que a porta. Antes de qualquer resenha nascer, já prepara um “boa noite” tão cedo que parece ter apertado o botão do térreo com a voz.
Os dois, porém, entendem uma regra silenciosa: ninguém é obrigado a abrir a resenha. Às vezes o espelho já trabalhou demais.
A súmula já saiu no espelho
Quando a porta finalmente abre, vem a despedida mais responsável do futebol: “boa noite”. Curta, respeitosa e cheia de assunto que ficou no elevador.
Porque, naquele espaço apertado, houve uma coletiva inteira sem microfone. A camisa identificou os envolvidos. A cara entregou o placar. E o espelho publicou a súmula.
Se alguém apertar o botão da resenha depois, aí já é outro campeonato: a conversa pode continuar no grupo da torcida.
Essa resenha tem endereço?
Marca o vizinho que já fez essa coletiva inteira sem abrir a boca.
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