O gol saiu. A cadeira ficou procurando você.

O grito baixou, os abraços soltaram e ficou uma cadeira rebatida no meio da fileira. Vazia. Firme no mesmo lugar de antes. Com uma dúvida muito justa: você sentava onde mesmo?
Antes do gol, havia uma organização impecável. Cada um conhecia seu número, seu degrau, o joelho que precisava desviar para passar e até a posição oficial do copo. A bola entrou e esse mapa foi cancelado sem aviso prévio.
Manual de retorno à própria cadeira
A reconstrução da fileira
A volta acontece por pistas frágeis: a camisa do vizinho, o corrimão, o degrau que parecia mais alto e aquela pessoa que estava com a mochila no colo. Tudo serve para montar a geografia de novo.
A melhor parte é que ninguém volta exatamente igual. Um senta meio de lado, outro ainda está olhando para o campo, outro pede desculpa sem saber muito pelo quê. A fileira se reorganiza, mas por alguns instantes fica com cara de pós-jogo mesmo que o relógio mal tenha andado.
A cadeira venceu
No fim, a cadeira estava onde sempre esteve. Não mudou de setor, não trocou de dono e não pediu substituição.
O gol é que fez a arquibancada virar outro estádio por alguns segundos. E, quando tudo volta ao lugar, sobra a certeza de que aquela cadeira vazia assistiu à comemoração inteira sem perder o assento.
Se a comemoração também acabou com qualquer chance de registrar o lance direito, tem outra história nessa mesma resenha: a câmera que abriu e ninguém sabe quem filmou.
Essa resenha tem endereço?
Depois do gol, voltar para a própria cadeira vira um pequeno jogo fora de casa. A cadeira ficou. Você é que precisa se encontrar.
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