O Gol Valeu Mais

O gol saiu. A cadeira ficou procurando você.

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Fileira de cadeiras amarelas com uma cadeira preta vazia no centro, cercada por torcedores de roupas amarelas e laranjas com os braços levantados.

O grito baixou, os abraços soltaram e ficou uma cadeira rebatida no meio da fileira. Vazia. Firme no mesmo lugar de antes. Com uma dúvida muito justa: você sentava onde mesmo?

Antes do gol, havia uma organização impecável. Cada um conhecia seu número, seu degrau, o joelho que precisava desviar para passar e até a posição oficial do copo. A bola entrou e esse mapa foi cancelado sem aviso prévio.

Manual de retorno à própria cadeira

A cadeira não fugiu. Você é que voltou dois abraços, um degrau e meio corredor longe dela.

O copo reaparece em outra mão. Ninguém sabe como, mas todo mundo olha para ele com respeito, como se fosse prova de VAR.

O “licença” chega atrasado. Primeiro a fileira vira comemoração; depois cada pessoa tenta refazer o caminho de volta no meio da alegria.

O número da cadeira ajuda pouco. Por alguns segundos, qualquer número parece pertencer a uma vida anterior.

Sempre aparece alguém apontando para um lugar com convicção de capitão. Pode ser o lugar certo. Pode ser a cadeira de uma pessoa que ainda está comemorando três fileiras adiante.

A reconstrução da fileira

A volta acontece por pistas frágeis: a camisa do vizinho, o corrimão, o degrau que parecia mais alto e aquela pessoa que estava com a mochila no colo. Tudo serve para montar a geografia de novo.

A melhor parte é que ninguém volta exatamente igual. Um senta meio de lado, outro ainda está olhando para o campo, outro pede desculpa sem saber muito pelo quê. A fileira se reorganiza, mas por alguns instantes fica com cara de pós-jogo mesmo que o relógio mal tenha andado.

A cadeira venceu

No fim, a cadeira estava onde sempre esteve. Não mudou de setor, não trocou de dono e não pediu substituição.

O gol é que fez a arquibancada virar outro estádio por alguns segundos. E, quando tudo volta ao lugar, sobra a certeza de que aquela cadeira vazia assistiu à comemoração inteira sem perder o assento.

Se a comemoração também acabou com qualquer chance de registrar o lance direito, tem outra história nessa mesma resenha: a câmera que abriu e ninguém sabe quem filmou.

Essa resenha tem endereço?

Depois do gol, voltar para a própria cadeira vira um pequeno jogo fora de casa. A cadeira ficou. Você é que precisa se encontrar.

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