O gol saiu na videochamada. A família entrou na comemoração.

O celular estava apoiado numa caneca, a conversa ia bem e ninguém tinha combinado de falar de futebol. Aí saiu gol. A caneca quase pediu substituição.
O celular estava apoiado numa caneca, a conversa ia bem e ninguém tinha combinado de falar de futebol. Aí saiu gol.
O grito veio antes da educação. O braço subiu, a cadeira deu uma recuada e o celular tremeu em cima da caneca como se também tivesse visto o lance.
Do outro lado da tela, a família ficou em silêncio por meio segundo. Tempo suficiente para a pessoa que torce tentar voltar ao enquadramento com uma cara serena, dessas que dizem: “Não aconteceu nada, podemos seguir falando da semana.”
A chamada mudou de assunto sem pedir licença
Não adiantou. Um quadradinho perguntou se era gol. Outro quis saber de quem. Teve quem nem soubesse qual jogo estava passando, mas já pediu placar com a autoridade de quem acompanha a tabela desde janeiro.
A conversa sobre trabalho, receita e notícia de família entrou nos acréscimos. Agora era preciso explicar o lance, descrever a jogada e dar um veredito rápido sobre a revisão que ninguém na chamada viu.
É nessa hora que a tela inteira ganha função. Tem o comentarista que pede replay. Tem o supersticioso que avisa para não comemorar antes da confirmação. E tem o “eu já sabia”, que chegou ao gol sem ter assistido um minuto da partida.
Por alguns minutos, todo quadradinho vira arquibancada
Quando a conversa original finalmente tenta voltar, já não volta igual. A família entrou na chamada para saber como foi sua semana e saiu discutindo se a bola desviou, se o goleiro podia fazer mais e se o próximo ataque merece atenção.
Gol tem esse talento: puxa para a torcida até quem estava só passando pela tela. A videochamada começou como reunião de família e terminou como uma arquibancada remota, com caneca tremendo no banco de reservas.
E quando o gol escapa do espaço privado, a resenha pode tomar conta de qualquer lugar. No ônibus, por exemplo, ela também não costuma passar despercebida.
Essa resenha tem endereço?
Manda para quem já transformou chamada de família em pós-jogo sem querer.
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