Ninguém desce do carro antes do apito final

O carro já está na vaga, a chave já saiu da ignição e ninguém encosta na maçaneta. Faltam três minutos para acabar.
O carro já está na vaga. A chave saiu da ignição. A garagem ficou em silêncio.
Ninguém encosta na maçaneta. Faltam três minutos para acabar.
Chegamos. Só falta o jogo deixar.
Para quem não está vendo o jogo, estacionar é chegar. Para quem está com o próprio time em campo, estacionar é só trocar de arquibancada.
Lá dentro, as quatro portas fechadas viram uma espécie de pacto. A pessoa que dirige olha para frente. Quem está no banco de trás segura a sacola no colo como se qualquer movimento pudesse chamar uma zica desnecessária.
Alguém fala baixo: “Dá para descer.”
O pessimista nem olha: “Agora não.”
O otimista tenta argumentar que são só três minutos. E é aí que ele revela não conhecer o futebol, o acréscimo e, principalmente, a capacidade que um time tem de transformar três minutos numa temporada inteira.
O estacionamento também é arquibancada
O rádio continua ligado. Se o jogo está na TV do celular, ninguém pede para baixar o volume. Até a mensagem “cheguei” fica escrita e não enviada, porque avisar que chegou antes da hora parece uma ousadia que o universo pode cobrar.
O carro pode estar parado, mas a cabeça segue correndo atrás da bola. Um chute para fora pede um suspiro coletivo. Uma cobrança perto da área faz todo mundo sentar de novo, inclusive quem já tinha soltado o cinto.
A porta só abre quando o juiz apita. Antes disso, não é garagem. É concentração.
Depois do apito final, aí sim: porta abrindo, sacola caindo, alguém dizendo que precisava subir correndo e ninguém com pressa nenhuma de admitir que ficou preso no carro por causa de um jogo.
Mas fica a regra para mandar no grupo na próxima vez: chegamos nada. Faltam três minutos.
Essa resenha tem endereço?
Chegamos nada. Faltam três minutos. Manda para quem já ficou preso no carro até o apito final.
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