Só Quem Torce Entende

Você está trabalhando. O radinho também.

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Radinho preto, fone enrolado e crachá em branco sobre uma mesa de madeira, com um estádio de futebol desfocado ao fundo.

A planilha está aberta. A mão está no mouse. Mas o narrador mudou de voz, e o bolso da camisa virou o setor mais movimentado do escritório.

Não foi grito. Não foi nem uma palavra inteira. Foi só aquele tom diferente, meio apressado, que faz qualquer torcedor esquecer por um segundo que estava escrevendo “conforme alinhado”.

A mão vai ao bolso num reflexo. Não para aumentar o volume, claro. Para diminuir. O radinho precisa continuar existindo, mas sem dar entrevista para a sala toda.

O protocolo do disfarce

Quem acompanha jogo trabalhando conhece o combinado silencioso: volume quase no mínimo, fone enrolado, resposta rápida no chat e uma expressão neutra de quem está profundamente concentrado numa célula da planilha.

O problema é que o radinho aceita qualquer ordem. A cara, não.

Num ataque mais perigoso, a sobrancelha sobe. Numa defesa difícil, a cadeira anda para frente. Quando o juiz marca alguma coisa duvidosa, a pessoa fica olhando para a tela como se a planilha tivesse cometido uma injustiça pessoal.

E sempre existe a ida casual até a água. Ninguém sabe por que ela acontece exatamente quando a transmissão fica mais agitada. Coincidência de calendário, talvez.

O radinho entrega menos que o rosto

O torcedor entra no expediente jurando que vai só acompanhar de leve. Sem se envolver. Sem perder o foco. Um adulto responsável, dono da própria atenção.

Aí o jogo aperta.

O cursor para no meio da frase. A mão cobre o bolso. A resposta que seria “vou verificar” vira “um minuto”. E o colega mais atento percebe que aquela pessoa está séria demais para alguém que acabou de receber um e-mail comum.

Esconder o som é fácil. Difícil é explicar por que você respirou aliviado olhando para uma tabela sem graça nenhuma.

No fim, a planilha até anda. Talvez um pouco mais devagar, mas anda. O radinho também faz a parte dele: narra, sofre, dá esperança e obriga o torcedor a praticar a expressão profissional mais frágil do mundo.

Você está trabalhando. O radinho também.

Mande para aquele colega que fica quietinho demais em tarde de jogo.

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Tem colega que fica quietinho demais em tarde de jogo. O radinho explica.

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