Resenha de Torcedor

O vizinho gritou gol. Agora você precisa fingir que não escutou

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Ilustração de dois apartamentos separados por uma parede: um torcedor já comemora, enquanto o vizinho tenta não ouvir e espera o lance chegar à televisão.

O vizinho gritou gol quando a sua TV ainda estava naquela parte em que alguém domina a bola no meio-campo. A partir daí, você não está mais vendo futebol. Está fazendo teatro.

O grito vem do apartamento ao lado quando a sua TV ainda está naquela parte em que alguém domina a bola no meio-campo.

A mão sobe sozinha para tapar uma orelha. A outra fica suspensa no ar, sem saber se comemora, se segura o sofá ou se aponta para a parede como quem diz: “calma aí, meu amigo”.

Pronto. Você não está mais vendo futebol. Está fazendo teatro.

A difícil missão de não saber

A regra seria simples: ouviu o vizinho, finge que não ouviu. Só que seu corpo não assina esse acordo. O ombro endurece, o olho arregala e você passa a assistir à jogada com a cara de quem já leu o último capítulo.

A bola vai para a ponta. Você sabe que vem algo. Ela volta para a área. Você sabe mais ainda. Quando o atacante ajeita o corpo, a sala inteira já percebe que existe uma informação proibida circulando ali.

Aí mora o risco: comemorar cedo demais é admitir que a parede venceu. Comemorar tarde demais é parecer que você torce com a emoção em parcelas.

Dois torcedores aparecem nessa hora

O Pessimista ouve o grito e desconfia na hora. “Calma. Pode ter sido pênalti perdido. Pode ter sido gol do outro. Pode ter caído um copo.” Para ele, todo berro atrás da parede vem com revisão do VAR imaginário.

Já o “Eu Já Sabia” tenta usar o atraso a seu favor. Quando o gol finalmente chega, ele levanta devagar, aponta para a TV e faz cara de analista: “Dava para ver que a jogada ia sair.” Dava, sim. Principalmente depois que o prédio inteiro ficou sabendo.

Nenhum dos dois engana alguém. Mas todo torcedor tem direito a uma tentativa de salvar a própria dignidade.

Quando a imagem finalmente chega

A bola entra. Agora pode. Os punhos sobem, o grito sai e a comemoração acontece com alguns segundos de atraso, mas com a seriedade de quem acabou de receber a notícia ao vivo.

Você não recebeu spoiler. Recebeu um teste de caráter dado pela parede.

E, no próximo ataque perigoso, lá está você de novo: abaixando o volume da TV como se isso resolvesse alguma coisa.

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