Resenha de Torcedor

A camisa foi convocada ao tribunal do armário

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Interior de um armário de madeira com uma camisa lisa laranja pendurada em um cabide e uma pequena etiqueta branca sem texto. Três cabides pretos vazios estão alinhados ao fundo; na prateleira há uma bola de futebol, uma cadeira pequena, um relógio analógico e alguns objetos.

O jogo acabou faz tempo, mas a camisa ainda não teve coragem de sair do cabide. O torcedor abre o armário, olha para ela e decreta: hoje tem tribunal.

Não precisa chamar ninguém. Três cabides vazios já fazem a bancada, e a camisa usada no jogo entende na hora que entrou como ré. Ela está ali, meio amassada, tentando parecer uma peça de roupa comum. Tarde demais.

A defesa da camisa

A camisa pede a palavra. Lembra, com uma dignidade que ninguém autorizou, que também esteve presente naquela vitória antiga. Naquele dia, ninguém falou em superstição. Ela foi tratada como titular absoluta, lavada com carinho e pendurada na frente das outras.

Mas, no tribunal do torcedor, vitória antiga não absolve derrota nova. Vitória é mérito do time, da torcida, da escalação, do cafezinho e da posição certa no sofá. Derrota, por outro lado, sempre deixa uma vaga aberta para um culpado inofensivo.

E a camisa estava lá. Vestida. Exposta. Sem advogado.

O veredito sai rápido

O juiz do armário nem consulta o VAR. Pega uma etiqueta, escreve à mão “Suspensa até segunda ordem” e prende no cabide.

A punição parece dura, mas vem com aquela justiça flexível de torcedor. A camisa não está banida. Só precisa refletir sobre o desempenho coletivo e, de preferência, ficar bem quieta até a próxima rodada.

No fundo, todo mundo sabe como isso acaba. Chega o próximo jogo, bate a dúvida, as outras camisas não passam confiança e a suspensa ganha uma chance de revisão. Porque zica também tem recurso.

A derrota não fica só no armário

A etiqueta resolve uma parte da dor. A outra vai para o grupo, onde alguém certamente vai mandar: “a sua também está em julgamento?”.

E, quando a camisa já cumpriu a suspensão mas a derrota continua rendendo provocação, o expediente segue no café do trabalho. Lá, até buscar açúcar pode virar coletiva pós-jogo.

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Depois da derrota, a camisa usada no jogo virou ré no armário. A sua também foi suspensa até segunda ordem?

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