A fila andou. Você é que ficou no último ataque.

A fila passou vinte minutos sem sair do lugar. Aí o jogo entrou no último ataque e o caixa chamou: “Pode passar as compras.”
Não podia. Quer dizer, podia. Era só tirar o pacote de macarrão do carrinho, pôr na esteira e repetir o gesto com o resto. Uma missão de dois segundos para qualquer cidadão comum.
Mas cidadão comum não está vendo seu time cercar a área nos acréscimos.
O carrinho virou linha de impedimento
Uma mão segura o celular. A outra fica no carrinho, firme, como se tivesse recebido ordem do treinador. A esteira está livre. O caixa espera. A pessoa atrás já encontrou aquela distância educada entre paciência e curiosidade.
O pessimista pensa que mexer no carrinho agora vai dar zica no cruzamento. O otimista calcula que dá para passar três compras antes de a bola chegar na área. Os dois erram porque o lance demora uma vida inteira, como todo último ataque que importa.
A banana, o café e o sabão em pó ficam ali, convocados para uma partida que não pediram para jogar. Ninguém atravessa a linha do carrinho até a jogada acabar.
A vida normal volta sem pedir licença
A bola sai pela linha de fundo, o apito imaginário toca e o mercado reaparece inteiro de uma vez. Tem compra para passar, sacola para abrir, aproximação para pagar e aquela pessoa atrás que, milagrosamente, ainda parece entender tudo.
O carrinho anda. A esteira anda. Você também. Só fica a certeza de que tarefas de dois segundos sempre escolhem o pior momento possível para aparecer.
E se o sinal do celular resolve sumir justamente quando a partida aperta, a aflição continua em outra escala: no ônibus, o jogo também pode entrar no túnel.
Essa resenha tem endereço?
A fila finalmente andou bem na hora do último ataque. Quem nunca?
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