Você entrou no banho. O gol escolheu essa hora.

Você entra no banho quando o jogo parece calmo. O gol sai antes de o shampoo sair do olho.
Você entra no banho quando o jogo parece calmo. Não parado, porque futebol nunca está realmente parado. Mas calmo o suficiente para acreditar que dá tempo de dois minutos sob o chuveiro.
A toalha vai para a cabeça, o frasco abre, a porta fica quase fechada. A TV continua falando lá na sala, num volume que parece controlado. Tudo sob controle. A famosa frase que o futebol adora desmentir.
A casa grita antes de explicar
Aí vem o grito.
Não é um grito simples. É aquele que começa em susto, cresce em esperança e termina com alguém batendo no sofá como se tivesse acabado de resolver uma final sozinho.
O shampoo entra no olho. A água parece escolher esse exato segundo para ficar gelada. E a pergunta sai da porta do banheiro com a urgência de quem perdeu o lance e a dignidade ao mesmo tempo: “Foi de quem?”
Cada pessoa viu um gol diferente
Do outro lado, a casa tenta ajudar. Um diz que foi cruzamento. Outro jura que foi golaço. Tem sempre alguém que só corre pelo corredor comemorando e não oferece informação nenhuma.
Você enxágua um olho, segura a toalha com uma mão e tenta montar o replay pela narração picada. “Foi de cabeça?” “Não, foi no rebote.” “Acho que desviou.” “Mas foi de quem?”
Nesse momento, a sala já virou mesa-redonda. E você ainda está negociando com o condicionador.
O replay chega antes da toalha
Quando você finalmente aparece, ainda meio molhado e com um olho desconfiado, o replay já está passando. A casa inteira se cala por dois segundos, como se o lance precisasse de uma comissão para ser entendido direito.
O banho era para durar dois minutos. Virou uma operação de emergência, com vapor no corredor, shampoo no olho e uma investigação coletiva sobre quem deu a assistência.
Em dia de jogo, a regra não escrita é simples: basta sair da frente da TV para o gol escolher o momento.
A distração muda. O gol não perdoa.
Se a bola costuma escolher suas pequenas saídas de cena, vale conhecer também a crônica em que a volta da padaria termina com a sacola no meio da comemoração.
Essa resenha tem endereço?
O gol saiu. O shampoo ficou no olho. Marca quem sempre perde o lance na hora de tomar banho.
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