O Gol Valeu Mais

Você entrou no banho. O gol escolheu essa hora.

Torcedor Premiado · · 2 min de leitura

Porta de banheiro entreaberta com vapor saindo; uma toalha branca pendurada em uma haste amarela parece uma bandeira de escanteio. Ao lado, um homem de fones observa uma televisão com um campo de futebol, com estádio iluminado ao fundo.

Você entra no banho quando o jogo parece calmo. O gol sai antes de o shampoo sair do olho.

Você entra no banho quando o jogo parece calmo. Não parado, porque futebol nunca está realmente parado. Mas calmo o suficiente para acreditar que dá tempo de dois minutos sob o chuveiro.

A toalha vai para a cabeça, o frasco abre, a porta fica quase fechada. A TV continua falando lá na sala, num volume que parece controlado. Tudo sob controle. A famosa frase que o futebol adora desmentir.

A casa grita antes de explicar

Aí vem o grito.

Não é um grito simples. É aquele que começa em susto, cresce em esperança e termina com alguém batendo no sofá como se tivesse acabado de resolver uma final sozinho.

O shampoo entra no olho. A água parece escolher esse exato segundo para ficar gelada. E a pergunta sai da porta do banheiro com a urgência de quem perdeu o lance e a dignidade ao mesmo tempo: “Foi de quem?”

Cada pessoa viu um gol diferente

Do outro lado, a casa tenta ajudar. Um diz que foi cruzamento. Outro jura que foi golaço. Tem sempre alguém que só corre pelo corredor comemorando e não oferece informação nenhuma.

Você enxágua um olho, segura a toalha com uma mão e tenta montar o replay pela narração picada. “Foi de cabeça?” “Não, foi no rebote.” “Acho que desviou.” “Mas foi de quem?”

Nesse momento, a sala já virou mesa-redonda. E você ainda está negociando com o condicionador.

O replay chega antes da toalha

Quando você finalmente aparece, ainda meio molhado e com um olho desconfiado, o replay já está passando. A casa inteira se cala por dois segundos, como se o lance precisasse de uma comissão para ser entendido direito.

O banho era para durar dois minutos. Virou uma operação de emergência, com vapor no corredor, shampoo no olho e uma investigação coletiva sobre quem deu a assistência.

Em dia de jogo, a regra não escrita é simples: basta sair da frente da TV para o gol escolher o momento.

A distração muda. O gol não perdoa.

Se a bola costuma escolher suas pequenas saídas de cena, vale conhecer também a crônica em que a volta da padaria termina com a sacola no meio da comemoração.

Essa resenha tem endereço?

O gol saiu. O shampoo ficou no olho. Marca quem sempre perde o lance na hora de tomar banho.

Mandar no WhatsAppBaixar o card
Ver card para compartilharVocê entrou no banho. O gol escolheu essa hora. — card para compartilhar.

← Todos os artigos

Concorra a prêmiosR$ 1,99 no 1º mês

Quero participar