Só Quem Torce Entende

O tênis já está pronto. O torcedor é que ainda está saindo de casa.

Torcedor Premiado · · 3 min de leitura

Tênis brancos limpos sobre uma mochila escura ao lado de uma porta aberta; uma camisa laranja e branca dobrada aparece no bolso lateral da mochila. Ao fundo, um homem de costas ergue os braços em um campo iluminado.

O tênis já está amarrado em cima da mochila desde depois do almoço. A viagem é amanhã. Mas, para quem vai ver o próprio time fora, amanhã é só um detalhe de calendário.

A convocação veio cedo demais

A camisa foi separada antes do almoço. O documento entrou no bolso pequeno. O carregador ganhou uma volta extra na mochila, porque ninguém confia num cabo que ficou solto na sala em véspera de jogo fora.

Não é que a viagem seja longa. É que deixar qualquer coisa para depois parece abrir espaço para a zica. E zica, como todo torcedor sabe, adora aparecer justamente quando alguém diz: “Depois eu arrumo.”

A mochila entra em concentração

A mochila fecha. Cinco minutos depois, abre de novo para conferir a camisa. Fecha. Abre porque talvez o documento tenha ficado na outra calça. Fecha. Abre mais uma vez só para confirmar que o carregador está lá, embora ele tenha acabado de ser visto.

Nessa hora, a mochila não guarda objetos. Ela guarda a paz de quem quer chegar na estrada sem voltar para buscar uma coisa que estava bem na cara.

Os últimos convocados da porta de casa

Perto da saída, os objetos deixam de ser objetos e viram elenco de confiança.

A camisa: já separada, dobrada e intocável até a hora de sair.

O documento: conferido tantas vezes que quase ganha apelido.

O carregador: pequeno demais para ser esquecido e importante demais para ficar fora da mochila.

A capa de chuva: vai escondida, porque ninguém quer dar moral para a previsão.

O despertador: programado como se fosse decisão.

Otimismo de um lado, superstição do outro

Na porta, mora uma dupla clássica. O otimista já fala da viagem como se a volta fosse depois de uma festa inesquecível. O supersticioso só pede calma e evita até comentar o placar que imagina.

Os dois olham para o mesmo tênis amarrado em cima da mochila. Um enxerga estrada, bandeira e resenha. O outro enxerga uma responsabilidade enorme: não mexer em nada até a hora certa.

A viagem já começou

A porta ainda está fechada. O ônibus, o carro ou a estrada nem entraram na história. Mas a torcida já foi na frente.

Quem vai ver o próprio time fora não faz mala: faz concentração. E, quando finalmente sai de casa, a mochila já parece estar esperando há horas.

Depois que a estrada começa, tem outro desafio de torcedor: acompanhar a partida quando o sinal resolve sumir no caminho.

Essa resenha tem endereço?

Quem vai viajar pra ver o time não faz mala: faz concentração.

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