O radinho cabe na mão. O jogo inteiro cabe na sua cabeça.

Alguém faz uma pergunta.
Você levanta um dedo: só um instante.
A bola está chegando na área. Não dá para responder sobre o almoço agora.
Primeiro, o ouvido vira arquibancada
O rádio está perto do rosto. Você conhece cada chiadinho daquele aparelho e, mesmo assim, dá mais uma ajeitada. Vai que melhora bem na hora do cruzamento.
A pessoa do outro lado da mesa repete a pergunta. Você faz que sim com a cabeça. Não sabe ao quê. Pode ter aceitado descascar a batata, buscar alguém ou mudar de cidade. Resolve depois do lance.
Na sua cabeça, o ponta já levou a bola para o fundo. Você ainda não viu nenhuma imagem. Mas está vendo o jogo.
Tem lance que faz a casa parar
Você escuta “levantou na área” e para com a colher no ar. A narração acelera. Seu corpo também: o ombro sobe, a perna estica e o banco parece ter ficado pequeno.
A bola passa perto. Você solta o ar e olha para quem está junto, procurando uma testemunha para o susto.
“Foi quase.” Duas palavras. Parecem pouco para o que acabou de acontecer aí dentro.
O dicionário de quem está ouvindo
Não é estatística nem regra. É a conversa fictícia de uma casa em dia de jogo.
“Só deixa terminar essa jogada.”
Como se aproximar o ouvido ajudasse no cruzamento.
A bola saiu. A explicação ainda não veio.
Você falou com o atacante. Ele não escutou.
Depois vem a versão de quem viu
Mais tarde aparece o vídeo do lance. O campo está diferente do que você imaginou. O passe veio de outro lado. O jogador que quase marcou nem estava tão sozinho.
Você assiste outra vez, agora juntando as duas coisas: o que enxergou e o que sentiu antes de enxergar. O susto continua valendo.
Não precisa escolher uma torcida “mais raiz” que a outra. Tem dia de estádio, dia de TV, dia de acompanhar de ouvido. O que interessa é encontrar um jeito de estar junto da partida.
E a pergunta do almoço?
O juiz apita. Você abaixa o rádio, volta para a conversa e finalmente pergunta: “O que você tinha falado?”.
A resposta vem sem hesitar: “Que a batata não vai se descascar sozinha”.
Fim de jogo. Começou o segundo turno da cozinha.
Se alguém da sua família também pede silêncio com um dedo levantado, você já sabe para quem mandar esta história.
Na resenha do Torcedor Premiado, tem lugar para quem vê o jogo e para quem monta o campo de ouvido. Só não vale esquecer a batata.
Essa resenha tem endereço?
Quem aí conhece esse dedo levantado pedindo silêncio na hora do lance?
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